Perfil de Felipe Sclengmann

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  • Ensaio Sobre a Cegueira

    Nota dada: 10

    Por inúmeras vezes, José Saramago, autor ganhador do Prêmio Nobel, não aceitou vender os direitos de adaptação de sua obra ?Ensaio sobre a cegueira?, dizendo que ?o cinema destrói a imaginação?. Por um lado o autor português não está errado. Por outro, é sempre tentador observar o choque de criações, entre a obra escrita e a visão de um diretor cinematográfico. No caso dessa adaptação, para nós brasileiros, a experiência se intensifica, por ser Fernando Meirelles (?Cidade de Deus?) o escolhido para a empreitada. Ele não decepciona. O filme possui um visual arrebatador, resultado de conversas e divagações de como se representava a cegueira para o público que leu a obra original. Além da direção, destacam-se também a fotografia de César Charlone e a edição inspiradíssima de Daniel Rezende. A história narra uma inexplicável epidemia de cegueira e se passa em grande parte em uma estrutura de confinamento montada pelo governo para aqueles que perderam a visão. Nesse claustrofóbico interior, o trio (Meirelles, Charlone e Rezende), valeu-se de uma fotografia dessaturada que leva ao branco, bem como foco e abstracionismo sensível, com surpreendente resultado. Técnica à parte, o roteiro adaptado é muito bem-sucedido ao manter elementos fortes, sem escorregar para o padrão comercial. Seria muito fácil fazer desse um filme convencional, visto que ele usa do inexplicável para experimentar com as reações humanas perante a falta de ordem. O ótimo elenco cuida para deixar a desumanização que ocorre ao longo da projeção sob controle. Não há monstros ali, apenas pessoas e seus comportamentos extremos. Ao fim, saímos do cinema com uma série de perguntas martelando nossas cabeças. A nossa realidade seria diferente em um caso tão extremo? Teríamos de adotar o comunismo numa situação dessas, afinal não poderíamos pensar cada por cada um e sim no bem maior? Sobreviveríamos por muito mais tempo? Meirelles foi corajoso nessa adaptação que dividiu crítica e público. Adaptou a obra da melhor forma possível. Gerou controvérsia e faz com que o grande público saia da sala com indagações sobre sua conduta. Será que somente ficando cego para então enxergar nossa realidade? Meirelles joga a verdade na cara do expectador. Quem não quer ver, merece ficar cego!